A escalada do conflito envolvendo o Irã não é uma crise distante. Ela tem consequências diretas para quem atua com prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo (PLD/FT) no Brasil: sanções que mudam de um dia para o outro, rotas de capital sendo reconfiguradas e grupos buscando novas formas de se financiar dentro do sistema financeiro global.
Para entender esse risco geopolítico na PLD, Thiago Mora, diretor comercial da Complif no Brasil, conversou com Jorge Lasmar, PhD em Relações Internacionais, professor da PUC Minas e CEO da Vor Consulting, e com Bernardo Mota, coordenador-geral de Articulação Institucional do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Um risco distante com impacto concreto
Lasmar apontou três impactos que o Brasil já sente:
- Macroeconômico e logístico: alta nos custos de energia, frete e seguros.
- Regulatório: as listas de sanções mudam muito rápido e o risco de sanção secundária aumenta.
- Adaptação das redes ilícitas: esses grupos passam a buscar novas fontes de financiamento.
O alerta dele: o risco de um ataque terrorista é diferente do risco de financiamento do terrorismo, e o Brasil pode ser um corredor desse financiamento.
Irã, GAFI e a Recomendação 19
O Irã está na lista negra do GAFI. Bernardo Mota explicou que, nesse nível, a contramedida mais severa prevista na Recomendação 19 é não fazer negócios com o país e encerrar os relacionamentos já existentes. E deu um exemplo de como isso chega ao Brasil: quando o Irã foi listado, os importadores iranianos de frango brasileiro ficaram sem como pagar, e um banco público teve de assumir a dívida com os exportadores.
Como o dinheiro se movimenta
Entre os mecanismos mais usados estão a lavagem de dinheiro baseada no comércio (trade-based money laundering), as empresas de fachada, o shadow banking e as stablecoins em carteiras não custodiadas. O Brasil já registrou casos públicos, como o de uma célula do Hezbollah financiada pelo contrabando de cigarros.
“O criminoso ou terrorista não grita, mas o dinheiro dele grita. É o dinheiro dele que a gente tem que ouvir.” — Bernardo Mota
Sinais de alerta para revisar agora
- Operações com pessoas, empresas ou jurisdições interpostas.
- Transações com países de alto risco e também com seus vizinhos.
- Movimentações fracionadas em stablecoins ou com carteiras não custodiadas.
- Beneficiário final pouco claro em operações de comércio exterior.
A recomendação final dos especialistas é que a abordagem baseada em risco esteja presente em todo o programa de PLD e que o compliance seja visto como parte da resiliência da empresa.

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